Resolvi te escrever alguma coisa, pois meu corpo implorava pôr pra fora um pouco desse sentimentalismo enrustido que há tanto tempo eu tento calar. Por onde andei achei a vida estranha, interessante, injusta e outra infinidade de coisas. Por onde eu andei vi, senti, fiz e vivi coisas que hoje fazem de mim alguém melhor. Sim, alguém melhor. Não que o teu julgamento quanto ao que melhorou ou não me convenha, mas melhor para mim. Sim, conheci o tal do amor próprio em uma dessas tarde loucas de domingo em que a utopia causada pelo pôr do sol toma peito depois de tantas noites mal dormidas com os olhos transbordando sentimentos. E sabe, não sei por que eu tento tanto parecer formal, inteligente e usar de um vocabulário que não me pertence pra falar contigo… Sei lá, são tantas as coisas que eu não sei.
Lembro da primeira vez que nos vimos na entrada daquela escola, aquele primeiro beijo escondido, aquela euforia do primeiro sim, os melhores abraços dos mundos, os planos mais bonitos, as juras mais sinceras, os piores e melhores segredos, a amizade inabalável, o companheirismo, a lealdade, a vontade de futuro, a vontade um do outro. E só de lembrar, veja só, já deixo pingar sobre o papel as marcas doloridas do coração. Sim, doeu muito e ainda dói um pouco, mas hoje eu sei que posso aguentar. Pareceu o fim do mundo e realmente era, era o fim do meu mundo com você para o inicio de um novo. Não entendo até hoje os fins que demos a tudo aquilo, não pode ter sido ilusão tanto amor vivido. Pra confortar dentro de mim, tento crer que não. Aceitar? Bem, esse processo é lento, mas está em andamento. E sim hoje sei que o meu erro foi voltar ao seio no nosso amor depois da primeira grande mágoa de te ver em outros braços. Não que eu me arrependa de tudo que vivemos depois daquilo, pois trago dentro de mim as mais bonitas, felizes e coloridas lembranças, mas por saber que foi a partir dali que eu nunca mais fui a mesma contigo. Errei um bocado de vezes por teimosia, infantilidade, insegurança, medo. E se somarmos todos os nossos erros e expomos cada um deles, um livro inteiro de falhas a não serem comentidas seria escrito. Eu sinto muito por isso. De coração, sinto muito por tudo de ruim que foi cometido.
No mais, eu só sei que eu te amo como parte de mim. Amor que não se vai e nem sei por que. Mas ontem à noite eu te vi linda e encantadora como sempre, e a sensação de distância me tomou o peito enquanto eu o adormecia em pura admiração e deixava um sorriso ficar na face. Os caminhos eram tão distintos, nesse ponto mudamos de estradas. Meus olhos captavam cada detalhe teu e eu sorria, parecia que aquela era a última vez que eu te olharia daquela forma. Me permiti tocar tua pela como se fosse porcelana, te abraçar sem jeito. Me senti boba e insegura como no começo. A consciência me puxando pro piso da realidade enquanto os olhos fotografavam. Nada dói, apenas saía. O amor morria sem esperanças ali na tua frente sem você perceber, levando consigo parte de mim.
Eu nunca fui fria, calculista, segura… E não diria que foi você quem trouxe isso pra mim. Da selva que é te amar eu venho me retirando seguindo a trilha certa. Não pra te esquecer, nunca pra te esquecer. Mas lembra o que você sempre dizia, que nem sempre podemos ter aquilo que queremos? E temos de buscar caminhos melhores. Apenas estou saindo desse abismo todo pra me por outra vez no mundo e caminhar. Sorridente, eufórica, exagerada, brincalhona e contente como outrora eu fui. Com calos nos pés e algumas marcas no peito, na consequência comum do tempo, mas nunca seca e amarga. E eu não vim te dizer “Adeus”, mas vim te contar mais uma série de coisas que eu sempre conto. Saindo da selva com ajuda de todo amor que eu tenho em volta, de todo amor que me move. Saindo da selva pra amar outra vez, pra ser mais feliz outra vez, pra ter paz… Quem sabe repousar qualquer hora dessas. Sinto muito meu querido por talvez todo tempo perdido, palavras sem sentido. Feito água no rio, deixa correr… Hoje, só hoje, me dei ao luxo de deixar sentir você dentro de mim por uma última vez.
Com imenso carinho, respeito e admiração que se pode ter em um ser.
Beijo e muita felicidade no teu caminho.
Amelie